terça-feira, 29 de julho de 2008

Quadros velhos empoeirados



Minha vida é rodeada por fantasmas masculinos que assombram meus devaneios, minhas neblinas, meus pensamentos, minhas ilusões de um futuro ou um passado que já foi distorcido, deformado. A cara dele já está mudada e não consigo encontrar mais os porquês dos resultados, ou as repostas para as feridas hoje existentes em meu corpo, em minha alma.

Penso que deixei para traz pedaços grandes de minha pele, ficaram as marcas das minha lágrimas no tempo, partes de mim que não voltarão para o meu ser, e se um dia eu acabe? Cada caminhar deixo um rastro verde funguento em meus pés, deixo eu, vou me perdendo. Cada namoro deixo uma perna, um braço, um abraço, sempre abraços e sempre no agora quero continuar deixando abraço para os fantasmas coloridos, as estátuas da memória que nunca se despedem ou eu não me despeço, disperso. Não agüento mais meus fantasmagólicos pensamentos, as lembranças borradas e a cada passo que me perco nasce mais um quadro de um príncipe manco, com seu cavalo raquítico que não agüentava carregar a sua donzela e esta donzela fazia o papel da servidora, do plebeu. E o príncipe muitas vezes foi embora correndo sem nem se despedir, levando consigo o coração de ouro da Cinderela, deixando adormecida em seu conto de fadas esperando o próximo ator contracenar na cena que continua no seu ritmo fugaz e não pára para nem mesmo mudar a cor do céu, o perfume. Tudo de seu peito continua o mesmo, apenas contos distintos para um mesmo cenário, uma mesma montanha, cheiro, sons. E a protagonista apenas mirando a ver se os seus cantos estão corretos, se estão preparados para alegrar aos olhos de mais um que cruza sua linha, de um futuro presente vultuoso, uma alusão ao passado que foi deixado no primeiro instante de um oi certeiro que culmina sempre em mais um trilhar de um nada, de pés andando em círculos, nos ares, pés delicados que com a sua perspicácia tenta traçar algo consistente no inexistente, curvas perfeitas delineadas, detalhes mínimos aperfeiçoados para que o príncipe seja realmente devoto de seu amor, hipnotizado pelo “vanglor”, uma estátua colocada num pedestal dos deuses de Apolo, até que este perceba a sua “imensitude”, veja a força de Sansão que existe em seu peito, o olhar de Narciso com seu lindo reflexo perdido na imensidão de um mar cristalino, transparente, mas o ente fica apenas para si e se vá para conquistar terras longínquas agora que tem sua arma aparada, preparada, sua armadura de ferro, bem talhada a vencer batalhas sem nem piscar, com a crendice de que pode tudo e nada pode com o presente pequeno que já foi deixado, não se recorda de quem te amou e te adorou, apenas um olhar confiante de que tudo foi arreglado e seu mundo acertado, os ponteiros da exatidão para a felicidade entrar pela porta da frente e a pequena singela sair pela porta dos fundos sem um trapo, traço, sem um brilho, deixada em palavras, toques, gestos perdidos no ar, sem significativas, sem razão de ser, de existir esta dança já tanto treinada e ensaiada para que se vaia na vida a contracenar com um outro alguém, uma cena mais perfeita que durará felizes para sempre. E a história do agora continua perdida em neblina, no branco, no puro com o impuro de tintas negras, marcadas com ferro a brasa em seu leito já preparado para um final drástico de vida amarga, de alegrias disfarçadas, mal vividas, agarradas com a força e escapadas entre os dedos, dedos calejados, mãos cansadas, rosto riscado, olhos amargos. E ela se vai carregando este fardo, uma sacola de memórias, objetos de umbanda, mal agouros presos em seu calcanhar, deixando o caminho marcado, forçado, pesado.

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